RSC-287: Santa Maria e Região merecem mais respeito e seriedade

Por VALDECI OLIVEIRA

Era um sábado ensolarado em Santa Maria. A caminhada pela Avenida Rio Branco até o Calçadão Salvador Isaia, apesar da pouca distância, durou mais de hora. Foram muitos abraços, paradas, sorrisos para selfies e declarações com a garantia de que atacaria os problemas do Rio Grande do Sul “sem atacar pessoas”, não repetindo o feito pelo governador anterior.

Oito dias depois Eduardo Leite seria eleito governador do estado, com a contribuição esmagadora de mais de 79 mil votos de eleitores santa-marienses. Mesmo que a cidade tivesse dado poucos ou nenhum voto para Leite, ela teria de ser tratada com respeito, pois um governo que se preze governa para todos.

Pois as eleições de 2018, essas onde proliferaram sorrisos e abraços, passaram e também terminaram os contatos efetivos entre o governador eleito e a comunidade de Santa Maria e da Região Central. Desde então, nesse intervalo de 17 meses entre a eleição e os dias atuais, o que temos visto são os problemas – educação, saúde, segurança, estradas – cada vez mais se acumularem e as pessoas cada vez menos sendo escutadas pela liderança maior do Rio Grande.

Desde o pleito de 2018, a cidade sequer viu ou ouviu uma defesa contundente por parte do governador contra as ações drásticas do governo federal, mais precisamente do Ministério da Educação, que repetidamente tem cortado fatias significativas e fundamentais do orçamento da nossa Universidade Federal, tão cara para Santa Maria e região.

A população de Santa Maria também espera, angustiada, pela abertura do Hospital Regional, pronto há mais de três anos, mas ainda com suas portas fechadas, com seus mais de 240 leitos que existem apenas no papel e com sua estrutura hoje sendo deteriorada pelo tempo.

A mais recente demonstração dessa miopia política foi a notícia, que merece não menos que o nosso repúdio e indignação, de que o governo do estado retirou o prazo – inicialmente previsto para 2030 – de início da duplicação da RSC-287, no trecho de 80 km entre Santa Maria e Novo Cabrais, obra inicialmente prevista no projeto de duplicação da rodovia até Tabaí. Não só retirou o prazo inicial – que na melhor das hipóteses será em 2041 – como também colocou em xeque a garantia de realização dessa obra tão estratégica para uma porção do território gaúcho que é vulnerável do ponto de vista econômico e social.

Lamentavelmente, apesar da ampla visibilidade dada pelo Executivo para o projeto de duplicação da 287, só que o se sabe concretamente a respeito desse projeto, até hoje, é que o número de praças de pedágios existentes entre Santa Maria e Porto Alegre aumentará de dois para cinco.

Ao anunciar essa bombástica decisão – de praticamente desistir da duplicação da 287 – o governo nem ao menos buscou ouvir as comunidades envolvidas. As desculpas do executivo estadual, ao meu ver, bastante frágeis e questionáveis, são o aumento do custo do asfalto e a trafegabilidade no referido trecho, que precisaria ser o dobro do hoje registrado.

Com essa atitude, o governador Eduardo Leite, mais uma vez, expõe seu descaso e falta de transparência e seriedade com o Centro do Estado. Nunca – nem mesmo na audiência pública realizada em Santa Maria, em maio do ano passado – foi colocado que o custo do asfalto e os indicadores de trafegabilidade seriam condicionantes para a obra.

Nosso mandato se utilizará de todos os expedientes legais, legislativos e políticos para, de forma coletiva, cobrar explicações e tentar reverter essa decisão. Mais do que cifras, estamos falando de vidas. Nos primeiros seis meses do ano passado, a 287, conhecida como a Rodovia da Morte, foi, juntamente com a 453, a responsável por 50% dos óbitos registrados nas estradas gaúchas. Ela também figurou como uma das mais violentas em 2018.

Diante de tamanho descaso com a cidade e região, me pergunto se o jovem governador ainda se lembra onde fica Santa Maria, se tem noção da sua importância para a região Central do Rio Grande e se recorda de uma das célebres frases ditas naquele 20 de outubro de 2018: ” A nossa infraestrutura causa um prejuízo enorme ao Estado do Rio Grande do Sul e isso diminui os investimentos da iniciativa privada”.

É, diante dos fatos, parece que o governador, após arrebanhar muitos votos, “esqueceu” do que disse e hoje governa de costas para o chamado “coração do Rio Grande”. Nos dias atuais, infelizmente, as equipes do Palácio Piratini preocupam-se muito mais em mandar o governador para Londres e Nova York do que para a dura realidade do interior gaúcho.

(Foto: Divulgação Secretaria de Logística e Transportes)