Artigo: Uma carta para Santa Maria

Por VALDECI OLIVEIRA –

Neste ano, infelizmente as comemorações serão mais tímidas, menos calorosas, não tão grandiosas. Mas nem por isso sentiremos um milímetro a menos de amor e carinho que temos por ti. É que, neste momento, estamos em meio ao enfrentamento de uma realidade até então inimaginável, vista por nós somente em livros de ficção e filmes de Hollywood, que por mais delicada ou perigosa que fosse ficava restrita às páginas ou às telas do cinema e da TV. Mas agora está diante das nossas mãos, a centímetros da nossa respiração, ao simples toque. Está logo ali…

Te garanto que se não formos às ruas para demonstrarmos todo nosso apreço por ti não o será por indiferença. É que, neste 2020, estamos com medo, apreensivos e não podemos, pelos menos já, distribuirmos e recebermos beijos, darmos e ganharmos acolhidos abraços, falarmos ao pé do ouvido. Precisamos ficar distantes agora para tão logo nos reencontrarmos de verdade. E mesmo assim não sei como será esse convívio futuro, ninguém sabe o quanto ele será afetado.

Neste domingo, tu estarás de aniversário e as homenagens e felicitações ficarão restritas ao mundo virtual, nas redes sociais, nesse universo por vezes irreal e agressivo. Mas nem por isso deixaremos de sentir tua presença, pelo contrário. Se eu fechar meus olhos, mesmo assim, sou capaz de, a partir das lembranças, sentir cheiros e gostos de momentos vividos. Sou capaz de imaginar meus pés firmes no chão, sentir e reclamar do verão ou do frio rigoroso do inverno. Sou capaz de ouvir o barulho do trem e sentir calor humano das aglomerações na Estação Ferroviária. E mesmo quando fora e distantes sempre lembramos, sempre voltamos.

Contigo aprendi que muitos dos meus sonhos eram possíveis, sonhos esses que povoavam a mente e o cotidiano do guri que ajudava a família na lida da roça em Dilermando de Aguiar até chegar a trabalhador metalúrgico e, bem lá na frente, já homem feito, a estudante universitário. Foi por conviver contigo que conheci a mulher pela qual me apaixonei, me casei, me tornei pai e avô.

Ao teu lado vi a desigualdade social muitas vezes ser a regra, presenciei dores e lágrimas de quem não tem e ter vi a exploração alheia ser tratada como moeda corrente nas relações entre capital e trabalho. Mas também ao teu lado comprovei ser possível dar uma chance a esses desiguais, fui testemunha de que toda luta vale a pena. Me mostrastes que não podemos dar lugar à indiferença e que as injustiças devem ter sempre o nosso repúdio e indignação.

Contigo tive muitas alegrias e também muitas certezas, entre elas de que é possível o filho do pobre se tornar doutor na UFSM. Vi que é possível que as pessoas tenham acesso à saúde pública de qualidade quando se tem um hospital como o Universitário. Juntos a Dom Ivo Lorscheiter e a Irmã Lourdes Dill, vimos que toda a solidariedade que permeia o Projeto Esperança/Cooesperança nos torna cidadãos, nos torna mais humanos, nos mostra que um outro mundo é possível.

Contigo tive a honra e a chance de poder comprovar na prática – quando fui prefeito no histórico momento em que completavas um século e meio de existência – que as ações do poder público podem e devem estar diretamente ligadas ao interesse de toda a sociedade, principalmente dos mais vulneráveis. Contigo mostramos que a cultura é mais do que uma simples proposta num plano de governo e que a participação popular é o que dá vida às relações da cidade.

Na época, nos idos de 2008, criamos coletivamente um slogan, bastante simples até, mas direto e verdadeiro, para marcar todas as comemorações alusivas aos 150 anos do coração do Rio Grande: Santa Maria, como é bom viver aqui.

Contigo provamos que a economia deve ser a soma de ganhos e que não precisa se contrapor à inclusão social. Contigo mostramos que o orçamento público deve estar legitimamente sob os interesses da população. Juntos aprendemos que as escolhas decorrentes de decisões políticas, a organização da sociedade e a consciência das pessoas podem produzir as necessárias mudanças, mesmo que estas sejam num ir e vir, na dualidade entre avanços e retrocessos.

Muitos dizem que tu tens o melhor xis do estado, o galeto mais saboroso do Rio Grande e o churros mais disputado destas plagas. Concordo. Mas o que de melhor tu tens mesmo é o teu povo, essa gente acolhedora, hospitaleira e respeitadora, cujas mãos sempre estendidas recebem quem quer que seja, mesmo que estes tragam junto de si apenas sonhos. Generosidade esta que transforma a vontade de ser alguém em profissionais preparados, reconhecidos, com condições de atuarem em suas áreas Brasil afora e até no exterior.

Por esses anos todos – e lá se vão mais de seis décadas de convívio -, por todo esse aprendizado, por todas as suas qualidades, por todas as chances a mim concedidas e por ter me aceito como um santa-mariense apaixonado por esta terra, mais do que os merecidos parabéns pelos seus 162 anos, eu quero, do fundo do meu coração, te agradecer.

Muito obrigado, Santa Maria da Boca do Monte, por fazeres parte não só da minha, mas da vida de milhares de homens e mulheres ao longo de todo esse tempo. A caminhada continua!